O primeiro passo na construção da proposta de percurso da pesquisa é a escolha do jornal que será utilizado e a delimitação cronológica dos exemplares que serão pesquisados. Aqui, optou-se pelo mais importante jornal de circulação regional, O Estado do Maranhão, em 1979. A escolha deste ano se coaduna com a concepção do que consideramos o ano de 1979 como um evento-chave[1] inaugurador da construção de uma temporalidade, em referência ao período de redemocratização brasileira.
Em função dos limites físicos deste trabalho e para tornar essa proposta factível ao professor, foram selecionadas as edições que circulavam no primeiro domingo de cada mês, devido ao volume de páginas e aumento da vendagem nesse dia específico. O propósito é observar as modificações e permanências referentes à atuação do jornal O Estado do Maranhão, analisando-o enquanto instituição central nos processos de significação nas sociedades contemporâneas e ator presente em momentos de crise, observados aqui como parte integrante das “significações sociais” (BIROLI, 2009, p.271), constantes na construção do sentido do presente e na (res)significação do que somos.
Segundo as informações expostas no próprio website do sistema Imirante[2], o jornal O Estado do Maranhão tem como marco de fundação a data de 1º de maio de 1953. No entanto, segundo Ramon Bezerra Costa (2011), o jornal O Dia, que futuramente será vendido e receberá o nome de O Estado do Maranhão, circulou, pela primeira vez, no dia 08 de março de 1953, havendo, entretanto, um intervalo entre sua fundação e venda[3] para o Grupo Jaguar, formado oficialmente em 1º de outubro de 1959. Destaca-se a atuação do empresário Alberto Wady Chanes Aboud que detinha majoritariamente as ações do Grupo e passa a exercer maior controle sobre o funcionamento do jornal, e a volta da publicação em 17 de janeiro de 1960, já sob a égide de Aboud.
Postos nestes termos, Ramon Costa nos apresenta dados dispostos na Biblioteca Pública Benedito Leite sobre o jornal O Dia, sendo elencadas as edições do “dia 8 de março de 1953 até 30 de setembro de 1958 e de 17 de janeiro de 1960 até 01 de maio de 1973 (quando mudou de nome)” (COSTA, 2008, p. 2). O autor deduz que não houve circulação entre outubro de 1958 e janeiro de 1960, quando volta a ser editado já com os novos proprietários. A aquisição do Jornal O Dia reverbera no histórico descrito no portal Imirante apenas como referência ao ano de 1973, quando passa a ser veiculado com o nome de jornal O Estado do Maranhão, tendo assumido o comando do periódico o então governador do Maranhão José Sarney e o poeta Bandeira Tribuzi[4].
Inaugura-se então uma “nova fase” neste jornal. A tônica propalada no discurso “modernizador” de Sarney também pode ser observada na autoimagem veiculada em seu histórico. Atrela-se a mudança de direção, de nome e de endereço à implantação de novas técnicas de impressão, equipamentos e modernização editorial[5].
Fixando as bases para compreensão deste periódico e sua atuação na sociedade maranhense, especificamente durante o ano de 1979, nas publicações circulantes durante o primeiro domingo de cada mês, o olhar será direcionado para as especificidades editorias, políticas, comerciais e simbólicas ensejadas em suas páginas. Foram pesquisadas aqui as edições do ano de 1979, de janeiro a agosto, privilegiando-se o mês de agosto para fins de análise do seu discurso jornalístico e as possíveis relações com a questão da anistia, formalizada pela Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979, fundamentada na ideia de “pacificação nacional” e do “caráter harmonizador” como parte de uma tradição conciliatória do povo brasileiro. Serão apresentadas perspectivas que identificam este discurso conciliatório e pacificador do jornal O Estado do Maranhão com as propostas de (re)abertura política engendradas pelo então presidente General João Baptista Figueiredo.
No ano de 1979, o jornal O Estado do Maranhão apresenta em seu quadro de diretores Joaquim Itapary na direção geral; Walter Rodrigues e Bernardo Almeida como diretores e Benedito Porto Mendes como diretor industrial, como podemos verificar na edição do dia 07 de janeiro de 1979, tendo ainda grafada em seu cabeçalho a inscrição ano VI (em referência à sua aquisição no ano de 1973). Com a composição gráfica ainda sem cores (mesmo nas edições de domingo, o que se verificou, em termos de amostragem ter ocorrido em meados de abril de 1979), sua impressão em formato Standard (29,7 x 53cm) ainda não trazia a informação da quantidade de páginas impressas e veiculadas pelo jornal, possuindo a disposição básica de texto em três colunas com predominância visual e de espaço reservado para a parte central. No período compreendido para fins deste artigo, o jornal possui, em janeiro entre 12 e 14 páginas (excepcionalmente), com relevante aumento para 16 páginas aos domingos, chegando 56 em edições dominicais posteriores.
Nesse momento, ao identificar aspectos básicos do jornal, como histórico, proprietários, editores principais, estruturação física e justificar a seleção do tema e dos exemplares que serão analisados, o docente já terá mapeado as informações iniciais, porém fundamentais, para o entendimento mais amplo das publicações veiculadas.
A incorporação de jornais como documento central para realização de atividades em sala de aula também exige que o docente afaste-se da perspectiva de que o jornal é o depositário da “verdade histórica” e que leve em consideração, como afirma Flávia Biroli (2009), o papel da imprensa na disputa e construção de representações posteriores sobre período abordado e sua (res)signifcação elaborada no seio da própria imprensa, incidindo sua disputa pelo “lugar de relevância no presente (BIROLI, 2009, p. 270) e sua atuação no passado. Essa perspectiva pode ser discutida em sala de aula, ampliando as limitações intrínsecas ou explicações naturalizadoras dos livros didáticos, uma vez que
os periódicos vistos como pólos em torno dos quais se reuniam e disciplinavam forças e instrumentos de combate e intervenção no espaço público, oferecem oportunidades privilegiadas para explicitar e dotar de densidade os embates em torno de projetos e questões, longe de se esgotarem em si mesmos, pois dialogam imensamente com os dilemas do tempo. Noutros termos, o índice que se apresenta ao leitor resulta de uma luta que cumpre ao historiador explicar (LUCA, 2007, p. 119).
Desta forma, a utilização de jornais como fonte histórica em sala de aula, de acordo com Circe Bittencourt (2011), pode ser realizada de múltiplas formas: a) análise dos conteúdos das notícias (políticas, econômicas, culturais, entre outras); b) da forma pela qual são apresentadas as notícias, as propagandas, os anúncios, as fotografias; c) a distribuição desse conjunto de informações nas diversas partes dos jornais ou mesmo ao longo de determinado período, como serão apresentadas as temáticas sobre abertura e aprovação da Lei de Anistia nas páginas dominicais do jornal O Estado do Maranhão, entre os meses de janeiro e agosto de 1979. Estas possibilidades podem fomentar um ensino de história que estimule o processo de identificação, comparação e estabelecimento de relações entre as notícias e seu contexto, sua possível conexão com o tempo presente e as permanências e rupturas dos processos da luta pela anistia no Maranhão ou, ainda, o silenciamento envolvendo violações de direitos humanos. Deste modo, ao justificar sua escolha pelo ano de 1964 enquanto elemento-chave para construção de sentidos, Flavia Biroli apresenta este ano como de fundamental importância para a “composição da temporalidade que orienta o fazer e o representar social e político”. São instrumentalizadas em sua análise as concepções teóricas de Cornelius Castoriadis e sua definição para as “significações sociais”, enquanto condições que tem por finalidade “dar sentido ao presente” (BIROLI, 2009, p. 271). Com o intuito de lançar olhar sobre o ano de 1979 enquanto chave para “dar sentido” ao turbulento momento pelo qual o Brasil se encontrava, podemos destacar as pressões e críticas efetuadas por uma sociedade civil organizada através de igrejas, sindicatos, artistas, imprensa e universidades que impeliam o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a uma postura mais firme diante do regime militar, condicionando os projetos de abertura internamente.
Essa possibilidade de abertura política se desenrolaria de forma “lenta, gradual e segura”, comportando todas as garantias básicas para a segurança do regime e seus agentes. Em outros termos, reconstitucionalização sim, mas não exatamente uma redemocratização. O país deveria permanecer sob a tutela militar continuada, procedendo com uma abertura lentamente ritmada e limitada, resultando na escolha do candidato do sucessor de Ernesto Geisel, o então chefe do SNI, João Baptista Figueiredo (TEIXEIRA, 2009, p. 263).
A partir de agora, passaremos, especificamente, à análise dos exemplares selecionados, apresentando, assim, uma possibilidade de trajetória da pesquisa para o professor.
Na edição do dia 07 de janeiro de 1979, em sua primeira página, evidencia-se a manchete da escolha do então senador José Sarney como novo presidente nacional da Arena. Justifica-se no texto ao lado da foto de Sarney e do senador Henrique de La Roque, que anunciou a escolha em uma entrevista, como “uma necessidade dos novos tempos de abertura institucional que o Brasil está vivendo, desde a revogação do Ato Institucional nº 5 e da implantação das reformas constitucionais”. Curiosamente, abaixo da manchete da nova liderança da Arena e suas possibilidades de renovação no “novo” quadro político que se configura (ou tenta se configurar) temos a chamada intitulada “Crise no MDB maranhense”, destacando uma divergência interna entre seus membros, com suposta acusação do presidente regional da agremiação sobre os deputados Epitácio Cafeteira, Jackson Lago e Haroldo Saboia, chamando-os de “boateiros”, subordinados ao esquema político do governador Nunes Freire e do presidente do Incra, Lourenço Vieira da Silva.
Jornal O Estado do Maranhão, 07 de janeiro de 1979, p. 01
Em meio às tímidas tentativas de deslocamento/desmonte do aparelho ditatorial alinhados ao projeto de abertura “pactuada” registrada no aparelho de Estado e na cena política brasileira, como a revogação dos Atos Institucionais, a apreciação do projeto de lei de Anistia pelo Congresso Nacional, a revisão da Lei de Segurança Nacional, engendradas desde o governo Geisel e a possibilidade de ampliação da representação partidária com o fim do bipartidarismo (em vigor desde o AI-2), o discurso/posicionamento do jornal em relação aos “novos tempos” nos mostra como a imprensa pode atuar como “uma instituição que é central aos movimentos de afirmação-alteração da instituição da sociedade” (BIROLI, 2009, p.271).
Ainda na mesma edição, a anistia aparece em entrevista concedida pelo major maranhense cassado pelo AI-2, José Pereira dos Santos, intitulada “Não vejo clima para anistia” (O Estado do Maranhão, 07de janeiro 1979, p.3), afirmando que uma simples “mão estendida” não resolveria os problemas do país, em referência ao “gesto conciliatório” de Figueiredo, enfatizando que ninguém havia lutado pela anistia e que esta deveria ser, a seu ver, ampla, irrestrita e recíproca.
Nessa perspectiva analítica, destacar-se-á a veiculação de notícias sobre o vestibular em 1979, apresentado recorrentemente com anúncios de curso preparatório, localização das salas para realização das provas, relação de aprovados e a veiculação de simulados na “Revista Vestibular”. Ainda na capa da edição de 07 de janeiro de 1979, é apresentada uma chamada escrita pelo hoje colunista social Pergentino Holanda sobre os “reitoráveis” da FUM (Fundação Universidade do Maranhão, hoje UFMA, Universidade Federal do Maranhão), formada por uma lista com os nomes dos integrantes da “lista sêxtupla” para escolha do novo reitor da Fundação.
Como poderemos perceber mais adiante, as vinculações entre o jornal O Estado do Maranhão e o vestibular não se encerram na divulgação dos “reitoráveis”, ou na lista de aprovados. Em várias edições posteriores são veiculados anúncios de simulado elaborado pelo jornal em parceira com o pelo Colégio Cipe, figura presente, carimbada e reimpressa em anúncios de seu curso preparatório para o vestibular. O Simulado era patrocinado pela CERMA, empresa maranhense que também veiculava anúncios publicitários impressos pelas off-set de José Sarney, com direito à entrevista com seu proprietário, destacando sua solidariedade e papel na sociedade maranhense. Assim, era recorrente o anúncio “nas edições de O Estado do Maranhão, toda a marcha do Vestibular Unificado/79”.
Esta edição, de 20 páginas, ainda apresenta seu projeto gráfico sem as cores azul e laranja, posteriormente adotadas e motivo de orgulho do Grupo Mirante de Comunicação, que se apresenta como pioneiro na inovação nas regiões do Norte e Nordeste. Seu preço de capa apresenta valores distintos para a venda na capital e timidamente no interior (em janeiro seu preço era de seis Cruzeiros na capital e sete no interior). Sugiro o termo “timidamente” no sentido de uma visível (e legível) política de interiorização do Executivo em andamento retratada pelo jornal e pelo surgimento/intensidade de temáticas através de colunas que retratavam o cotidiano e as disputas políticas da parte continental do estado[6].
Ainda na análise da estruturação física do jornal, destaca-se o apelo à sua penetração e recepção, mesmo que através das lentes da construção de sua autoimagem, que pode ser notada nas caixas de textos diagramadas com frases como “40 mil olhos vêem esse anúncio” (O Estado do Maranhão, 07 de janeiro 1979, p. 6)” ou “habitue seu filho a ler jornal todos os dias (O Estado do Maranhão, 16 de março de 1979, p. 4)”, bem como na propagandística retórica de “Leia O Estado do Maranhão – Cada vez melhor” (O Estado do Maranhão, 08 de abril de 1979, p.6) ou, ainda, direcionando seu discurso não ao leitor “comum”, mas às empresas e comércios maranhenses, possíveis anunciantes, através do texto “este espaço está reservado para seu anúncio” (O Estado do Maranhão, 17 de junho 1979, p.7). Destaca-se que essa mensagem encontrava-se diagramada na mesma página com a temática “trabalho”, disposta ao lado da coluna “Semana sindical” e de anúncios de profissionais liberais na seção “Indicador profissional”, com predominância de anúncios dos serviços de clínicas médicas, dentistas e advogados.
Outra abordagem que se destaca aqui é a relação com o mercado de compra e venda de carros (novos e usados) e motos através da página de anúncios intitulada “automobilismo – mercado e indústria” no qual são apresentadas tabelas de preços referentes a um único anunciante (enquanto empresa, excetuando-se os revendedores de carros usados autônomos, denominados pelo próprio jornal de “revendedores locais”), neste caso, a Alvema, Alcântara Veículos e Maquinas LTDA, fundada em 13 de junho de 1977 pelo empresário Manoel Dias. Posteriormente à provável euforia no mercado de compra e venda de automóveis, os anúncios de página inteira com tabelas de preços completas foram substituídos por fotos de modelos recentes e suas especificações técnicas, sendo agora diagramadas em grandes proporções na página do jornal.
Ainda na exposição do(s) fio(s) condutor(es) que norteia(m) a observação do jornal O Estado do Maranhão e de suas especificidades no ano abordado, é dado amplo destaque à diplomação por parte do Tribunal Regional Eleitoral – seção Maranhão (TRE-MA) dos eleitos no pleito de novembro de 1978: um senador, 12 deputados federais, 36 deputados estaduais e seus suplentes, com suas presenças devidamente aguardadas, segundo o jornal, assim como do Governador eleito (indiretamente) João Castelo e o senador Henrique de La Roque. Apesar de o texto demonstrar na fala do presidente do TRE-MA, o desembargador Araujo Neto, a pretensão de revestir o ato de “alta significação” e de concessão da palavra para os representantes da Arena e do MDB, o mesmo não pode ser observado no espaço reservado à foto e identificação dos candidatos eleitos pelo MDB em relação à Arena. Numericamente inferiores (31 deputados pela Arena versus 5 do MDB), restritos à pequenos boxes que, em termos de diagramação, são suplantados visualmente pelos representantes da Arena. As diferenças também se dão na relação proporcional entre as imagens de ambas as agremiações, sendo as do MDB, ligeiramente diminutas em relação à legenda adversária (O Estado do Maranhão, 07 de janeiro 1979, p. 10-11). Entendemos esta relação texto x imagem como “sugestão” de leitura, agindo como uma espécie de “guia”, no sentido de “produção de sentidos”, com origem na intencionalidade de quem produziu a imagem (GOUVÊA, 2014, p. 22).
A publicação de uma carta aberta encerra a edição de 07 de janeiro de 1979, endereçada Carlos Eduardo Novais, cronista do Jornal do Brasil e que, segundo Sebastião Murad, que assina a carta com direito a inscrição de CPF abaixo da assinatura, uma colega de trabalho (Maria Helena Beltrão) escrevera uma reportagem que, a partir de então, caracterizaria Codó como “Símbolo Nacional da Miséria” nas páginas do JB. Murad argumenta que a descrição feita da cidade de Codó se mostra equivocada e tendenciosa a respeito de expectativa de vida e educação, por exemplo. Procura desmentir a matéria com dados de indicadores sociais e econômicos, não obstante a afirmação que “Codó não é nenhum paraíso, existe fome, analfabeto, enfim, um pouco de BRASIL” (O Estado do Maranhão, 07de janeiro 1979, p.20). Deste modo, sugere, inclusive, a utilização da Lei Falcão para justificar “má conduta” da jornalista, bem como seu “desprezo pela profissão”. Encerra seu artigo convidando Carlos Eduardo Novaes para uma noite de autógrafos em São Luis e em Codó, supostamente preocupado com a repercussão negativa nos leitores maranhenses, em especial os codoenses. Uma vez mais, abre-se espaço para o interior do estado e os meandros de suas articulações políticas, já que Sebastião Murad afirma que a provável motivação da escrita do artigo por parte de Maria Helena Beltrão seriam as eleições de novembro de 1978, sendo o artigo escrito com dados coletados a partir de informações obtidas com líderes de objetivam tirar proveitos eleitorais, na tentativa de deslegitimar os números e o quadro (caótico) representado pela jornalista.
Outra questão a ser observada nesta análise é a frequência com que são noticiados anúncios ofertando serviços gráficos. São destacadas características como “pontualidade e perfeição”, como no caso da Gráfica Escolar, que passou posteriormente a imprimir o próprio jornal O Estado do Maranhão. Esta questão pode ser relacionada com os avanços no parque tecnológico de impressão e diagramação e com a mudança visual implementada pelo jornal ao longo de 1979.
Na edição de 04 de fevereiro, é dado destaque para a divulgação da escolha do secretariado do governador João Castelo, com ênfase aos critérios de “honestidade, competência e lealdade” para a composição de seu “primeiro escalão” (O Estado do Maranhão, 04 de fevereiro, p.1). Outras manchetes são enunciadas como a eleição do Conselho Universitário da UFMA, expansão telefônica da TELMA, a corrida de fórmula 1 em Interlagos e a possibilidade de pagamento do salário especial atrasado dos professores da rede municipal. Mantém a disposição básica em três colunas, com a inserção de fotos na capa para as matérias aqui citadas.
A publicação do discurso do governador “eleito” João Castelo em página inteira reforça uma tônica de apoio adotada pelo jornal que se consolidará nos próximos meses. Em página oposta, também inteira, há a presença de fotos, formação e respectivas pastas assumidas pelos novos secretários. “Fechando” a matéria temos o box com as os nomes/cargos da diretoria do jornal, numa espécie de assinatura ou ênfase no apoio dado ao novo governo.
Jornal O Estado do Maranhão, 04 de fevereiro de 1979, p.2
A esta altura, multiplicam-se os anúncios, explicitando os mais variados tipos de produtos e serviços à disposição da sociedade (leitora do jornal) maranhense. Ofertas de empregos, restaurantes, casas de créditos e empréstimos e um isolado anúncio de venda de casas, atividade que se transformaria e ganharia espaço nas páginas do jornal. Curiosamente, as relações entre os anúncios de automóveis novos e o movimento de “especulação imobiliária” são inversamente proporcionais. Anúncios de páginas inteiras sobre casas, apartamentos, aluguéis, valorizações de (novos) bairros tomam espaço nas páginas standard do jornal.
As relações entre o periódico e as novas empresas que atuam no ramo imobiliário também podem ser observadas e analisadas enquanto duplo movimento de rupturas e permanências. No que diz respeito à edição de fevereiro escolhida aqui, é perceptível a diminuição dos anúncios de tabelas completas com os valores de carros novos, sendo a predominância agora da divulgação dos preços dos carros usados (tanto pela Alvema, quanto pelos “revendedores locais”, sendo esta última agora com maior espaço na página). Outro sinalizador de mudanças no mercado automobilístico maranhense é o lançamento do “consórcio nacional Fiat”, operacionalizado pela Alvema, com a possibilidade de pagamento em 36 meses, sem entrada (O Estado do Maranhão, 04 de fevereiro, p. 11).
Como novidade, O Estado do Maranhão disponibiliza agora para seus leitores a intitulada “Revista Nacional” como parte integrante do jornal. Já nesta edição, que cobre eventos e questões “nacionais” relativos à semana de 04 a 10 de fevereiro, no caso. Como capa, são destacados “as divisões do socialismo na França”, “turismo, nova esperança do Nordeste”, “falta verba para derrotar a poluição” e a “volta sensual de Gabriela”, personagem da atriz Sonia Braga (Caderno “Revista Nacional”, editado pelo jornal O Estado do Maranhão. 04 a 10 de fevereiro de 1979, p.1). Mesmo entre as “amenidades” discorridas em suas páginas, há o apelo para a venda de anúncios no interior da Revista Nacional, como por exemplo, “anunciando na Revista Nacional, você ganha mais, naturalmente, porque suas vendas serão multiplicadas. Anuncie, compare e compre as vantagens” ou “leia e anuncie no ‘O Estado do Maranhão”’.
Nos idos de março, mais exatamente na publicação do dia 11, o destaque é dado para a “evolução democrática baseada na prudência” rumo à democracia capitaneada pelo “futuro” presidente (conforme já havia sinalizado Geisel) João Baptista Figueiredo. Afirma ainda a adoção de medidas para controle da inflação e que isto não significaria recessão econômica, já que as “dificuldades são transitórias” (O Estado do Maranhão, 11 de março de 1979, p.1). Ao lado do texto sobre Figueiredo, é apresentada uma fotografia do encontro do deputado federal eleito pela Arena, Edson Vidigal e o então presidente desta agremiação, José Sarney. Vidigal afirma na manchete: “Sobrevivência só no Estado de Direito”. O deputado eleito aproveita a oportunidade para caracterizar o MDB e a Arena como “somatório dos partidos extintos e que, apesar desse tempo todo, não se aperceberam da necessidade de se transformarem em partidos nacionais”, asseverando que aqueles ficaram apenas como “cartórios” para registro de candidatos às vésperas das eleições, representando a vitória de grupos regionais e não do candidato “em si”. No caso, aponta Vidigal, o MDB foi mais usado neste tipo de articulação do que a Arena. Encerra afirmando que diante da precariedade do atual quadro dos “partidos” e visando a verdadeira democracia, segundo afirma, não há mais como não admitir a alternância de poder e que a Arena estaria preparada para nova realidade política brasileira.
O governador João Castelo volta às páginas do jornal O Estado do Maranhão com os preparativos para a divulgação do programa de seu governo. Retorna também de “importantes contatos” com o presidente Geisel, Figueiredo e com Sarney. Na página 8 da mesma edição, Figueiredo é representado pela manchete: “democracia repele a baderna”. Das quatro fragmentações em subtópicos no texto em questão, apesar do clima de “novas possibilidades para a política brasileira”, todas apresentam termos que caracterizariam um (re)endurecimento do regime, mesmo que em termos explicitamente econômicos, e não sua distensão ou devolução do poder aos civis[7]. Podemos reproduzir ipsis litteris os enunciados: “temos muitos obstáculos à frente”; “extinção da pompa”; “corte de gastos: condição inadiável” e “austeridade vai subordinar ajuda” (O Estado do Maranhão, 11 de março de 1979, p.1).
Jornal O Estado do Maranhão, 11 de março de 1979, p. 8
A mesma edição publica o discurso de José Sarney na reunião com João Baptista Figueiredo, na íntegra, reafirmando o compromisso e a lealdade, demonstrando que o presidente possui o apoio da maioria, “pronta a colaborar com o seu governo, obedecendo o respaldo necessário para que ele possa cumprir suas metas de trabalho” (O Estado do Maranhão, 11 de março de 1979, p.9).
O Estado do Maranhão, 01 de julho de 1979, p. 9
João Castelo estampa a edição de 01 de abril de 1979 com a manchete “Castelo pede fortalecimento da Sudene”. Logo na chamada, é expressa a quantia de três milhões de Cruzeiros destinados a seu programa de planejamento estadual, afirmando ter levado à reunião em Recife com o Conselho deliberativo da Sudene um estudo sobre a “problemática sócio-econômica do meu Estado, onde também são abordados outros problemas do Nordeste” (O Estado do Maranhão, 01 de abril de 1979, p.1). Continua com o que diz ser não apenas reivindicações, mas contribuições na tentativa de marcar, segundo Castelo, “a nossa presença neste órgão”, apontando o Nordeste agora, não como uma região-problema, mas como solução.
Sobre mercado editorial figuram ainda anúncios sobre as impressões em off-set da Gráfica Escolar e nesta edição nota-se um possível dado referente à distribuição do jornal no anúncio “precisa-se de gazeteiros”, ofertando uma comissão de 30% sobre a venda do jornal. Os anúncios apresentam sofisticação gráfica com ilustrações bem detalhadas ou reproduções de fotografias (em menor qualidade de impressão) para anúncios de menor expressão em comparação aos de página inteira ou de grande anunciantes como Alvema anteriormente ou Armazéns Paraíba ou Guaraná Cerma no mês em questão.
Nesta edição, é apresentado (pela primeira vez em pagina inteira, no nosso recorte temporal escolhido), um anúncio com um lançamento imobiliário da Vórtice Engenharia, situado no bairro do Anel Viário, e segundo o questionamento do próprio anúncio: “você não gostaria de morar pertinho do Jaguarema, Lítero, Frango de ouro e adjacências?” ou “você já pensou em morar num lugar tranqüilo? Sem ponte? Sem engarrafamento?”. A construtora enuncia seu empreendimento como as “casas mais requintadas construídas até hoje” (O Estado do Maranhão, 01 de abril de 1979, p.7). Em oposição a esse crescimento, a Alvema anuncia “financiamento na hora: na Alvema você combina a entrada e a forma de pagamento. O Anúncio do Fiat 147 sob o título de “O modelo econômico brasileiro” reforça o diagnóstico inflacionário que ronda(va) o Brasil em 1979 e os temidos impactos das medidas tomadas para frear o “dragão” da inflação. O colunista social Pergentino Holanda (e ainda hoje integrante do quadro de O Estado do Maranhão) divulgou nesta mesma edição que o jornalista Cordeiro Filho iria assumir a direção do jornal, “passando a integrar definitivamente o ambiente que já tomou parte em outros tempos” (O Estado do Maranhão, 01 de abril de 1979, p.12). Contribuição essa difícil de ser tabulada nas páginas aqui analisadas. Contudo, é verificável (embora careça aqui, dentro da proposta deste artigo, de mais embasamento e pesquisa) o salto, no mínimo, quantitativo do jornal O Estado do Maranhão sob a regência de Cordeiro Filho. Por exemplo, um anúncio de página inteira, repleto de fotos de relativa qualidade gráfica (devidamente parametrizada pela tecnologia da época) da loja José Elias Tajra & Cia, com eletrodomésticos e utilidades para o lar, no falar da época. É dado destaque para uma entrevista coletiva concedida por Felicia Soares, esposa do desaparecido político Ruy Frasão, afirmando que “não há nenhuma expectativa que ele esteja realmente vivo. Existe sim, uma questão emocional, de não tê-lo visto morto. Um sentimento de incerteza em relação a uma coisa que racionalmente está concretizada” (O Estado do Maranhão, 01 de abril de 1979, p.1).
Jornal O Estado do Maranhão, 01 de abril de 1979, p. 3
Ainda no mês de abril notamos a utilização de cores no nome do jornal e nas linhas que dividem internamente a capa, predominantemente azul. Abaixo do nome do jornal temos os nomes do diretor-geral, Cordeiro Filho e do editor-chefe, F. Couto Corrêa. Na coluna “Registro” é descrito brevemente como ficou a redação do “novo” jornal O Estado do Maranhão e das visitas que receberam. “Foram 52 páginas feitas em menos de 10 horas. Páginas que tinha de tudo, desde a beleza do “Sete dias” até o dia-a-dia da polícia” (O Estado do Maranhão, 09 de abril de 1979, p.5). O jornal dirige seu agradecimento aos “amigos-empresários” e “homens públicos” que tiveram na redação naquela ocasião. No que tange à “interiorização” do jornal, é dado destaque ao Jornal da Baixada, transmitido pela TV Difusora, bem como à notícias dos municípios de Alcântara e Pinheiro, sendo agora esta coluna assinada pelo correspondente José Raimundo Rodrigues.Em 08 de abril, é apresentado como foto de capa um sorridente presidente Figueiredo ao lado da manchete “levar saúde ao interior: preocupação maior é a saúde dos mais carentes”. Destaque na área central para um estudo determinado pelo governador João Castelo pretendendo viabilizar aumento de salários para funcionários. Temos também, em texto direcionado ao leitor, a reafirmação de uma nova fase do jornal. Apresenta-se, deste modo, como colocando-se à
disposição dos anunciantes um jornal de feição moderna, bem noticioso e adotando uma linha de independência, sempre voltado para a defesa dos interesses e das reivindicações populares, circulando inclusive às segundas-feiras. Seremos um jornal do jeito que o povo gosta (O Estado do Maranhão, 08 de abril de 1979, p.1)
A retórica adotada caminha em direção às dificuldades que deverão ser enfrentadas, sendo as mais urgentes, aquelas referentes à matéria-prima para impressão e a melhoria e o aumento do “pessoal executor dos nossos planos”. Justifica-se assim o aumento do preço nas edições de domingo, passando de seis para sete Cruzeiros. Notamos também a presença de uma coluna denominada “Política” assinada por Werber Lima com destaque especial para a divulgação da agenda de João Castelo. Na página reservada ao automobilismo, as tabelas de preços tanto de novos como de usados são substituídas por uma anúncio de página inteira do “primeiro esportivo brasileiro com mecânica Fiat”, o Dardo F1-3, exposto em quatro fotografias externas e uma de seu interior, ladeado por um box com suas características. Abaixo do anúncio observa-se o endereço e contatos telefônicos da Alvema.
Pela primeira vez no corpus selecionado são veiculadas informações e anúncios, em uma única página, sobre mercado imobiliário. O anúncio refere-se à imobiliária Adalberto Leite Imóveis, separada internamente por “vende-se” e “aluga-se”. Na página oposta, na coluna “Urgente” é noticiada a volta do empresário Adalberto Leite de um estágio na Auxiliadora Predial S.A. descrita como a “maior imobiliária das Américas. De acordo, com a matéria não assinada, o empresário colocará todo seu know-how adquirido a serviço de sua empresa. É ainda informado ainda que estaria pronta a planta da sua futura sede, a qual funcionará em um prédio próprio na Rua do Passeio.
Nesta seleção de documentos referente ao mês de abril, é apresentado o cartaz, do lançamento do filme “Tubarão 2”, com sua reprodução nas páginas do jornal, bem como os horários e filmes exibidos nas telas dos cines Roxy, Passeio, Eden e Cine-alpha. A penetração do jornal no interior pode ser percebida no anúncio de página inteira do Grupo Gerson Lucena[8] “que por suas Empresas saúda a nova fase do jornal O Estado do Maranhão, nesta arrancada do progresso que iremos ter”. O referido Grupo atuava no ramo de automotores (pneus, lubrificantes, vidros, baterias, conforme o próprio “anúncio-saudação”) com penetração nos municípios de São Luis, Bacabal, Santa Inês e Teresina, demonstrando nitidamente “apreço e admiração” pelo jornal O Estado do Maranhão.
Dentre as edições aqui analisadas, no dia 06 de maio, o número de páginas passa a ser exibido acima do nome do jornal (padronizado com letras brancas em fundo azul) e entre os nomes do diretor-geral e do editor-chefe, Cordeiro Filho e F. Couto Corrêa. No exemplar pesquisado, foram 20 páginas e com preço de venda de sete Cruzeiros para venda na capital e oito no interior (apesar do mea-culpa da capa de 08 de abril), em nome dos avanços gráficos e melhorias com o quadro de funcionários e técnicos manteve-se o aumento. A notícia em destaque na edição do dia 06 de maio é sobre a “sugestão” do então deputado estadual Sarney Filho sobre alterações na Lei orgânica dos partidos políticos, no que se refere à reeleição de prefeitos no ano de 1982. A implantação de um novo canal de televisão em São Luis, a Tv-Ribamar também é noticiada com destaque nesta edição. As fotografias e chamadas de rodapé nos remetem novamente à recepção (ou ressignificação de autoimagem) do jornal no interior do Maranhão. São dispostas três fotografias, duas de pessoas aparentemente lendo o jornal e outra de um provável “gazeteiro”, e um box azul, proporcional às fotos, com letras em destaque lê-se: “O Estado disputado em Balsas.”
Nesta edição, o quadro que antes apenas apresentava seus diretores e editores, agora nomeia, certamente, Cordeiro Filho e F. Couto Corrêa, mas também arrola uma nova divisão e atuação/alcance do jornal. O jornal passa a ser impresso pela Gráfica Escolar S.A e possui, agora, cargos como diretor industrial, diretor administrativo, diretor comercial (o colunista Pergentino Holanda) e secretário, todos com suas respectivas funções e nomes apresentados nesta parte do jornal. Ainda sobre recepção/penetração, o alcance do jornal O Estado do Maranhão se mostra, neste estudo, através de anúncio do representante comercial do jornal no Sul do país, em endereço do Rio de Janeiro. Diametralmente, o jornal chega ao interior do Maranhão através da Distribuidora DIMAPI (Distribuidora Maranhão Piauí) também aqui anunciada.
Verifica-se o aumento considerável de anúncios, agora em formato de 35 quadrados em uma página inteira denominada “Veja aqui onde você vai comprar” (O Estado do Maranhão, 06 de maio de 1979, p.19-20). ofertando inúmeros “produtos e serviços”, indo de confecções à materiais de construção, um diminuto anúncio da Alvema, disputado entre linhas com outros anunciantes pequeninos e também ávidos por espaço, anuncia um Fiat 147. Seis anúncios na padronização da página anterior dão continuidade à seção de ofertas. Aqui, começam a ganhar corpo dentro do jornal, em termos de variedade de empresas, os anúncios imobiliários, demonstrando a perda de “exclusividade na parceria” Adalberto Leite Imóveis e o jornal O Estado do Maranhão.
O lamento pelo aumento de preço se faz presente novamente na edição do dia 03 de junho de 1979, agora com 52 páginas aos domingos. A justificativa para tal reajuste, diferentemente do aumento anterior, não se faz entender facilmente. De acordo com o resultado de uma “apreciação em conjunto” dos jornais O Imparcial, O Estado do Maranhão, O Jornal, Diário do Povo, que assinam a nota direcionada ao “caro leitor” (O Estado do Maranhão, 03 de junho de 1979, p. 01).
O Estado do Maranhão, 03 de junho de 1979, p. 01
Os preços passam a ser, nos dias úteis, de sete Cruzeiros para capital e oito para o interior. Aos domingos, oito e nove Cruzeiros, respectivamente. Como manchete principal desta edição é noticiado o envio de cem milhões em verba através do Ministério do Planejamento visando a construção e recuperação de estradas vicinais próximas às áreas produtoras de arroz para, segundo o governador João Castelo, evitar a perda da safra.
É dado destaque para o vestibular e para a veiculação de sua “Revista Vestibular” com a parceria CIPE-CERMA e o jornal. Uma nova parceria é apontada, agora no mercado de caminhões e ônibus, percebida nos anúncios da Empresa Taguatur, com “direito” a fotos e descrição do veículo (O Estado do Maranhão, 03 de junho de 1979, p. 3). Na página seguinte, a Alvema divide página com a Krone, uma nova empresa no ramo de transportes, apesar de um anúncio, agora um pouco maior, do Fiat 147. Em relação ao mercado imobiliário, um anúncio reforça a ideia de morar “do outro lado da ponte”, “separado do barulho da cidade”, na “tranquilidade do bairro[9] que tem nome de santo” (O Estado do Maranhão, 03 de junho de 1979, p.9). São exibidos o croqui e a planta do edifício Gonçalves Dias em 3/4 da página, reservando os anúncios laterais para informes da Marinha, aplicação de piso Synteco e oportunidades (não muito explícitas) de trabalho em uma multinacional (também não especificada), exigindo apenas o perfil do candidato. Ainda sobre mercado de trabalho, nesta edição de domingo é veiculada a uma página inteira sob o título “Bolsa de empregos” com várias oportunidades de trabalho, com destaque para o “emprego do dia”, exibido em quadro separado dos demais.
Sobre nosso evento-chave, a partir de agora, será dado destaque para as notícias referentes à anistia e suas distintas abordagens, entre o mês de julho, que antecede a aprovação da Lei de Anistia, e a forma como o assunto é tratado, em sua relação com os movimentos sociais no Maranhão que lutavam pela anistia, durante o mês de agosto. A presença desses assuntos nos permite refletir sobre a agenda das “microtransformações” constantes nas páginas do jornal O Estado do Maranhão no ano de 1979, em sintonia com o discurso conciliatório e harmonizador pretendido pela dobradinha Geisel-Figueiredo. Em fundo preto, acima do nome do jornal, a chamada para a página 2 informa: “Anistia deixa de fora 195 pessoas” (O Estado do Maranhão, 01 de julho de 1979, p. 1-2). Essa nota pode ser considerada significativa (ou relevante em termos de “construção de sentidos” ou de uma “instituição de temporalidade”), já que o caráter parcial, restrito e recíproco consubstanciado pela Lei de Anistia de 1979 fica evidente nas palavras do porta-voz do Palácio do Planalto, Marco Antonio Kraemer. São apontados os que seriam popularmente conhecidos como “crimes de sangue”, ou seja, os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal. Essa exclusão do benefício da anistia reverberou e se cristalizou no segundo parágrafo da Lei de Anistia aprovada. O tom conciliatório aparece ainda na edição do dia 01 de julho. Na publicação do colunista Cirilo Filho é dado destaque à figura de José Sarney, então o presidente da ARENA, reconhecendo que o projeto de anistia “beneficia a todos os torturadores que não foram condenados, e que a partir da aprovação pelo Congresso da proposta, eles não poderão mais ser processados” (O Estado do Maranhão, 01 de julho de 1979, p. 1-2).
O Estado do Maranhão, 01 de julho de 1979, p. 2
Na edição dominical de dia 05 de agosto, a “construção de significado” em torno do esquecimento comandado pelo regime militar (não obstante seu eco nas demais edições do mês de agosto de 1979) poderia ser identificada nas “amenidades” da edição dominical através do destaque para o aumento no preço da cerveja (justificado pelo aumento do IPI num reajuste de sessenta para setenta e dois por cento), logo abaixo da chamada para a página de esportes noticiando o “duelo de gigantes” no “clássico samará[10]” e a passeata promovida por um damista campeão. Como centro de página a manchete intitulada “índios voltam a ter conflito com os brancos” figura ao lado de uma denúncia contra a indústria farmacêutica Merck, acusando-a de “poluir rio” e “adoecer moradores” (O Estado do Maranhão, 05 de agosto de 1979, p. 08). Aumento na gasolina para taxistas e impasse sobre a legislação trabalhista dos serviços gráficos no Maranhão também compõe as páginas desta edição, bem como as notícias sobre a possibilidade de benefícios da Previdência Social para os trabalhadores da construção civil e a criação de uma associação de trabalhadores de rádio e TV. Nas páginas seguintes são veiculadas notícias sobre a instalação da Difusora FM e a promessa de implantação de uma nova tv, ambas pertencentes ao Grupo Barcelar, do deputado maranhense Magno Barcelar.
Deste modo, por se tratar do mês da aprovação da Lei de Anistia, poderá ser realizado o mapeamento da temática ao longo do mês de agosto nas edições do jornal. Temas relacionados à tramitação do projeto, os pronunciamentos sobre seus rumos e as possibilidades de identificação do caráter conciliatório, embora recíproco e excludente, em torno da anistia aprovada, a abordagem conferida à atuação dos movimentos sociais ou o silenciamento nos meses que se seguem à aprovação da lei podem ser analisados e problematizados pelo professor, podem ampliar significativamente as discussões sobre a construção do conhecimento histórico e abre a possibilidade de preenchimento de lacunas observadas nos livros didáticos.
Já na edição de 09 de agosto de 1979 é noticiado o posicionamento do presidente da Comissão de Constituição e Justiça, o senador Henrique de La Roque (ARENA-MA), advertindo a oposição no sentido de “não radicalizar seu comportamento na Comissão mista que estuda o projeto de anistia apresentado pelo Governo” (O Estado do Maranhão, 09 de agosto de 1979, p. 9). São também publicizadas as palavras do deputado, também pela ARENA-MA, Edson Lobão, apontava que a “oposição agora quer ir longe demais quando propõe, em seu substitutivo, a anistia para os crimes de sangue, podendo com isso prejudicar melhorias no projeto do governo” (O Estado do Maranhão, 09 de agosto de 1979, p. 9). A nota é encerrada com as palavras de La Roque afirmando que lutaria pela amplitude da abrangência da anistia, mesmo que esta acontecesse em mais de uma etapa, caracterizando aquele momento de aprovação da lei como “um momento de conciliação” (O Estado do Maranhão, 09 de agosto de 1979, p. 9).
O Estado do Maranhão, 09 de agosto de 1979, p. 9
Em outra perspectiva, em matéria do dia 14 de agosto de 1979, é veiculada a mobilização do Comitê Brasileiro pela Anistia – seção Maranhão, juntamente com um grupo de artistas maranhenses para discussão sobre o projeto enviado para apreciação do Legislativo. É descrita como principal preocupação do movimento a garantia dos “meios adequados” para que anistia seja aprovada. Em entrevista ao jornal, Reginaldo Telles, presidente do CBA-MA, descreve que “a anistia que o Comitê Brasileiro vem debatendo está voltada para os princípios cristãos, é uma ação fraterna para apagar a barreira do passado (…), pois só existirá paz se houver esquecimento daquele que foi considerado um crime cometido no passado (O Estado do Maranhão, 09 de agosto de 1979, p. 11). A questão da reciprocidade da lei ao anistiar torturadores e outros agentes da repressão, crítica fundamental do CBA ao projeto em tramitação, não aparece nas páginas do jornal.
Nas datas que se aproximam da aprovação do projeto é dada ênfase, como matéria de capa do dia 23 de agosto de 1979, com declaração de José Sarney sobre a vitória das propostas da ARENA na aprovação do projeto de lei. Contudo, Sarney não confirma o caráter divisionista da votação do projeto, afirmando que nenhum arenista votou contra a orientação da liderança, seja “por rebelião de caráter político ou desapoio”. A “vitória” ser refere aos embates da Comissão que apreciaria o projeto, especialmente sobre o substitutivo proposto pelo Deputado arenista Djalma Marinho, que previa a abrangência da Lei de Anistia aos excluídos dos dois primeiros parágrafos do projeto do governo, propondo a Emenda nº 53, com a seguinte redação: “Parágrafo único: Consideram-se crimes conexos aos crimes políticos, para os efeitos da presente anistia, além dos atos preparatórios e complementares de crime político, os crimes de qualquer natureza praticados por motivação política” (BRASIL, CONGRESSO NACIONAL, 1981, p. 115). [11].
O Estado do Maranhão, 23 de agosto de 1979, p.01
Nesta mesma edição há uma publicação sobre a missa realizada na noite anterior, na Igreja de São João Batista, em São Luis, contando “com a presença de líderes sindicais e estudantis, representantes de entidades de classe, políticos e populares, além de membros do CBA” (O Estado do Maranhão, 23 de agosto de 1979, p. 09). A perspectiva de identificação dos diversos grupos que lutavam pela anistia no Maranhão pode ser aliada um panorama de suas reivindicações, como no trecho a seguir: “durante o ato litúrgico foram citados fatos de maneira intercalada, referindo-se à operários, camponeses, jornalistas e profissionais liberais exilados no exterior, por crimes políticos, e feitas de denúncias de torturas”, seguida da “leitura de alguns nomes de mortos de mortos e desaparecidos, entre os quais lavradores, estudantes e profissionais” (O Estado do Maranhão, 23 de agosto de 1979, p.09). No encerramento o então deputado Haroldo Saboia anunciou o resultado da votação do projeto de anistia no Congresso Nacional e, sob os gritos de “a luta continua”, foi encerrada a concentração.
O Estado do Maranhão, 23 de agosto de 1979, p.09
A cobertura sobre a aprovação da Lei de Anistia é expressa no jornal O Estado do Maranhão especificamente entre os dias 27 e 29 de agosto, com matérias de capa como: “Figueiredo acerta detalhes para a anistia” (O Estado do Maranhão, 27 de agosto de 1979, p.01), “Sanção da anistia é hoje com um veto presidencial” (O Estado do Maranhão, 28 de agosto de 1979, p.01), “Anistia foi sancionada com um veto” (O Estado do Maranhão, 29 de agosto de 1979, p.01 e 02) com a reprodução total da lei e do veto enviado pelo presidente Figueiredo ao Congresso, sem comentários ou referências às manifestações que ocorreram em São Luis após a aprovação da Lei ou nas mobilizações em torno da volta de muitos exilados. A perspectiva de uma anistia conciliatória também pode ser identificada na entrevista veiculada com Clemente Domingos Pinheiro[12], presidente do Sindicato dos Arrumadores de São Luis, sobre os problemas trabalhistas, salariais e a anistia. Esta última abordada tangencialmente e exaltando que os sindicatos foram favorecidos com o indulto da anistia e a possibilidade de volta à cena política de seus dirigentes que foram afastados. O jornal apresenta as afirmações de uma agremiação tão combatida e perseguida pelos AI’s e que agora se mostra receptiva ao projeto proposto pelo governo. Nas palavras do próprio José Sarney, em 29 de agosto de 1979, chamando esta luta pela anistia de “traumática e difícil”, caracteriza essa fase atravessada por Figueiredo como necessária para a reconciliação entre os brasileiros e fundamental para “cicatrizarmos as feridas do passado”, devendo, portanto, ser saudada a anistia (O Estado do Maranhão, 29 de agosto de 1979, p. 02). Deste modo, as linhas sobre anistia esmaecem no jornal O Estado do Maranhão, vindo à tona outra questão que ocuparia suas páginas diárias: a reformulação dos partidos que, de certo modo, dependia da aprovação da Lei de Anistia, uma vez que representava a volta à cena política de antigos opositores do regime em torno de novas possibilidades de agremiação partidária.
O Estado do Maranhão, 27 de agosto de 1979, p.01
O Estado do Maranhão, 28 de agosto de 1979, p.01
O Estado do Maranhão, 29 de agosto de 1979, p.01
O Estado do Maranhão, 29 de agosto de 1979, p.02
Ao esmaecer os contornos das contradições e crises inerentes à abertura proposta pelo governo, o jornal O Estado do Maranhão se posiciona quase que diariamente na propagação dos ideais de desarmamento de espíritos revanchistas ou que se tornem um obstáculo para a tão desejada pacificação nacional. Contudo, para que seja de fato retirada das oposições e movimentos sociais uma de suas principais bandeiras contra o regime militar, a disputa pela concessão da anistia, são veiculadas matérias, reportagens e entrevistas que exaltam os benefícios que esta medida traria à sociedade brasileira. Políticos, jornalistas, artistas, atletas, padres, sindicalistas, alguns militares moderados, as mais variadas representações e entidades se manifestam com o júbilo das benesses da medida e a inexorável aceitação do esquecimento comandado que, em tese, novamente uniria os homens e mulheres deste país[13].
Seguindo pela ótica da escolha do ano de 1979, culminando na aprovação da Lei de Anistia, encarada aqui como “evento-chave” para a instituição (ou no caso, institucionalização) de significação na sociedade brasileira, percebemos o deliberado empenho do jornal O Estado do Maranhão em fomentar um “clima amistoso”, necessário para garantir ao regime sua “transição pactuada”, sem rupturas, que garantisse a permanência de pessoas e instituições em um “novo governo” que sairia das entranhas da velha ditadura reformulada e com seu discurso adaptado, facilmente identificado em suas publicações, somadas à veiculação de mensagens do próprio presidente Figueiredo exaltando a medida e das primeiras pessoas beneficiadas com o indulto da anistia mesmo antes de sua aprovação, como no caso do retorno dos exilados e possibilidades de atuação política, como na revogação dos Atos Institucionais. Deste modo, a “tradição conciliatória brasileira” seria uma vez mais revisitada e atuaria como forma de enfraquecer os movimentos oposicionistas e nortear o caráter de reciprocidade que asseguraria a ocultação do caráter militarizado, tutelado, lento, gradual, seguro e impune deste processo de transição. A preservação da memória histórica das distintas mobilizações em torno da anistia no Maranhão, tão longamente silenciadas, passa pela perspectiva de um ensino de história em diálogos com questões que envolvem a garantia da manutenção de direitos fundamentais para exercício pleno da cidadania e suas relações com a cibercultura. A ênfase para o caráter inconcluso dessa luta, com ecos nos dias de hoje, encontra agora um lugar de memória no Acervo Digital da Luta pela Anistia no Maranhão.
[1] Concepção adotada por Flávia Biroli (2009) para o ano de 1964 em função de terem se desenrolados neste ano medidas que destaca como orientações para “composição da temporalidade que orienta o fazer e o representar social e político” (BIROLI, 2009, p. 271). Apropriando-se dessa perspectiva, considero o ano de 1979 como um evento-chave, não só em função da aprovação da Lei de Anistia, mas também da extinção das Comissões Gerais de Inquéritos, abrandamento da Lei de Segurança Nacional e a revogação dos Atos Institucionais.
[2] Grupo de comunicação que abrange a Rede Mirante, as rádios Mirante AM e FM e o Jornal O Estado do Maranhão. Histórico disponível em www. http://imirante.com/oestadoma/internas/historico
[3] Periódico que circulou a primeira vez em 08 de março de 1953, estando à frente Arimathéia Athayde como diretor e Renato Carvalho e José Bento Neves, como gerente e secretário, respectivamente. Na época da venda para Alberto Aboud o Jornal O Dia estava sob direção de Alexandre Costa. COSTA, 2008. p. 2-4
[4] As aproximações entre José Sarney e Alberto Aboud tendo como ponto de convergência o jornal O Dia datam de 1968, quando Sarney passa a integrar o quadro de sócios do periódico ou mesmo quando Aboud filia-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena), elegendo-se, em 1968, prefeito de São José de Ribamar (COSTA, 2008, p.4).
[5] O jornal O Estado do Maranhão foi pioneiro em impressões a cores e na utilização das chamadas rotativas off-set, tanto quanto no uso de editorações eletrônicas e no que se chamava “microinformática”, substituindo o processo quase artesanal ou mesmo a utilização do “vagaroso” linotipo.
[6] Como na edição de 08 de abril de 1979, sobre a visita da Food and Agriculture Administrationof United States (FAO) ao interior do Maranhão para verificar as potencialidades da atividade pesqueira no estado, ou na edição de 16 de março de 1979, p. 8-9, nas seções “Notícias do sertão maranhense”, em página inteira e “Folha do interior”, na página oposta.
[7] Ou na fala de Figueiredo, “o desafio começa no fato de estarmos em plena primavera de reencontro com as franquias democráticas”, daí deduz-se a “cautela” de uma “distensão pactuada” e não por “ruptura”, como foi a nossa.
[8] Grupo composta pelas empresas Pneumaq, Transaraujo, Gervel, Pneuauto, Kerogás, e Renovadora de pneus Teresa Cristina.
[9] O bairro em questão é o São Francisco.
[10] “Clássico” do futebol maranhense o embate entre os times Sampaio Correia e Maranhão Atlético Clube.
[11] Ainda que representativa da falta de consenso sobre o projeto de anistia ou dentro da própria ARENA, a Emenda foi derrotada por 206 votos a 201.
[12] O Estado do Maranhão, 09 de agosto de 1979, p. 07
[13] Artigo Relembrando o esquecimento: os meandros da lei da anistia e as disputas pela memória no estado de exceção, apresentado à disciplina Historiografia e Linguagens.